29 June 2017

da força.

Alguns não acreditarão. Muitos não perceberão e outros tantos acharão que esta gaja nem sabe do que fala! Que esta riquinha só trabalha porque tem cunhas e que a dondoca podia até mandar o trabalho à fava e viver à custa do rico maridinho. Muitos acham que eu curto é estar aqui longe de tudo e sossegadinha no meu canto a olhar para o telefone. Muitos acham que sou antipática e não me ouviram sequer falar. Muitos acham que sou mandona e tenho mau feitio. Muitos acham muita coisa e nem sempre tenho o tempo a vontade de as discutir ou tão pouco de me defender. Muito menos num esquema de monólogo em que eu só iria parecer paranóide porque ninguém me disse nada e "lá estás tu com a mania" de que sei o que os outros acham.
Não sei, de facto. Mas sinto. Sinto quando não telefonam ou quando o fazem. Sinto quando mandam recados e sinto quando não sinto que faço parte de qualquer coisa. Não vale a pena especular sobre o timing do que digo ou do que terá acontecido para ela agora vir com esta conversa de coitadinha... Não vale porque não é de agora e há-de ser para sempre. E a culpa não é vossa, tua, minha ou nossa. Não há culpa, há circunstâncias e há a vida que temos ou escolhemos e que se desenrola cada dia de forma diferente. E hoje deu-lhe para isto.

Outro dia falava com colegas também emigrantes retornadas e desterradas da nostalgia de já não viver nos EUA. Uma delas acabou de chegar e eu não quis deprimi-la ainda mais, mas no meio do abraço que lhe dei podia ter dito:
vais-te sentir mais desterrada aqui do que do outro lado do atlântico...   vais ter dias de merda e vais ter dias excelentes. E o mais estranho em que entre o bom e o mau está quase sempre a solidão. O estar aqui e não onde estão outros. Seja porque razão for, a sensação de que estamos a ficar esquecidos vai surgir e vai-se instalar. Be ready, não melhora.
Cada círculo há-de mover-se de forma diferente e com sorte vai correr tudo bem, claro que vai!
Não te sei ensinar truques, ao fim destes anos todos ainda há dias que faço tudo mal, em que não lido bem com isto. Vais fugir da solidão com isolamento. Vais ser agressiva quando querias era só não saber mais de qualquer coisa em que não vais participar. Vais te armar em superior e que nem que pudesses tinhas ido àquele evento. Vais fazer tudo mal e vais fazer tudo bem. Vais ser besta e bestial. Vão achar que foste tu que te esqueceste e sumiste e estás como queres. Vão achar muita coisa. Mas enquanto os corações que carregas fora de ti estiverem felizes, acha tu que estás a fazer qualquer coisa de bem. Resta-te isso e isso, o sorriso que vires e o riso que ouvires, é por onde te deves medir.
Força.

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