16 November 2016

das vésperas

Já me confessei um bocado choramingas, choro em espelho, choro baixinho e sem momento certo. Não tenho por hábito, mas acontece que assim é e já desisti há anos de me contrariar. 

Quis o destino que na minha segunda semana de convalescença eu tivesse a companhia, alternada, dos meus filhos em casa. Ora febres, ora dentes arrancados, foram passando o dia comigo. Eu de lado num sofá, eles derreados pela febre ou mau-estar, ambiente pasmacento em que pouco há que fazer senão ver filmes non-stop. Clássicos da Disney, alguns novidade para mim, a saber, Entrelaçados.
Há uma cena em que um pai, o Rei, chora pela filha desaparecida há 18 anos, no seu dia de anos, aquele em que em memória dela se lançam lanternas lindas ao céu. São uns segundos e foram mais que suficientes para ficar perturbada, para chorar, para sentir a garganta dorida e a cara vermelha. O A. não estava comigo a primeira vez que vi a cena, escapei. Mas estava connosco quando a vi a segunda vez (sim, cada filme 3 ou 4 vezes...) e claro está, gozou-me. E em coro a X. gozou-me também. E eu fiquei com vergonha. Com desconforto dos meus filhos me verem chorar (não faz sentido, mas pelos visto terei vergonha de mais coisas do que imaginava, tipo, ter vergonha de ter dor! pensarei um bocado mais sobre isto...)

Talvez tenham achado que era apenas mais uma cena daquelas lamechas em que deito sempre uma lágrima, talvez achassem que estava naquela altura do mês e aliada à cratera que trago no fundo das costas, aquele suspiro do Rei foi a gota d'água. Talvez. Mas sinto que não. Foi um Pai a chorar por uma filha, 18 anos depois. Foi a minha constatação de daqui a 18 anos anos, vou chorar. Foi saber que o mau estar que tive esta noite, como tenho tido todos os dias 15, a emoção à flor da pele nesta semana, o andar de preto sem o pensar, como se tivesse sido hoje... daqui a 18 anos, sem quisto, sem disney, vou chorar como choro hoje. Já aconteceu não me lembrar que era dia 15, a véspera, até sentir que dormi mal, tive o impulso de me vestir de preto, estar triste ou simplesmente chorar. Aí cai a ficha.


Não ando deprimida, e ainda hoje disse ao A. que sim, sou feliz, mas hoje, hoje vai doer sempre.
E só passaram 7 meses. 7 meses em que nasceram bebés, passou-se de ano com boas notas, assinaram-se novos contratos, fraquejaram amizades e abriram-se horizontes.  Sinto-me diferente. Não consigo julgar-me e saber se ando assim há 7 meses. Acho que não mudei, mas chega o dia de hoje e inevitavelmente faço o balanço, uma introspecção só para confirmar que não estou, de facto, deprimida. Dou os abraços mais fortes, digo mais as coisas? [devia dizer.]  Ainda outro dia me perguntava a anestesista se eu era uma pessoa nervosa. Demorei uns segundos a responder e terá ela achado que eu não percebi a pergunta e reformulou: é uma pessoa calma ou quer alguma coisa para não ficar ansiosa?... Agradeci, não quero não, mas queria ter acrescentado: 1) ansiosa e calma são opostos? 2) é porque eu demorei a responder porque não era nada calma sabe? até bastante impaciente se calhar, mas agora?... sou a paz em pessoa, ando calma. Não sei se andarei ansiosa, lá está...

Não tarda andamos a correr atrás do natal e eu devia estar ansiosa com os presentes, mas só consigo pensar em como será este natal e ficar grata por a véspera ser dia 24.





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