9.26.2016

do amor.


Em conversa de treta dizia alguém que conhecia os avós como tendo sido felizes o casamento todo - ainda dizia que era sorte! Parvoíce, ilusão, infantilidade, cegueira ou show-off. O que quisermos menos a verdade dos dias que conheço, das pessoas que me rodeiam, daquilo que somos.

Ninguém está feliz todos os dias, ninguém está sempre apaixonado, ninguém está imune da confusão que pode ser o amor. Mas todos passamos por lá. Pelo amor e pela confusão. E se de facto não tivermos uma delas há qualquer coisa errada.  Todos estamos de trombas hoje para estar perdido de amor amanhã.  Todos nos deitamos em alguma altura com vontade de ter a cama vazia e numa outra altura com vontade de acordar quem está ao lado, no meio da noite, sem pretexto, sem aviso, sem preliminares. Todos cedemos em qualquer coisa e batemos o pé noutra.
A garantia de que chegando ao fim do dia, estamos lá, juntos, é tão boa quanto poderá não ser.

Não é sorte. A sorte termina depois de nos encontrarmos uns aos outros. A partir daí é paixão e se durar uma vida, foi amor. E ou se ama ou não se ama [ponto final]. Não há filhos, dinheiro, logísticas, família ou aparências que tragam mais ou menos amor.  Os filhos, a logística, o dinheiro e as famílias são manutenção de uma relação, não são poção de amor. Ninguém mais tem que nos aturar desgrenhados de manhã. Ninguém mais tolera o beijo com o hálito de café ou tabaco ou caril. Ninguém mais sabe em que ponto do corpo não se pode tocar e aquele em que depois de tocar já não se pára. Ninguém mais percebe o olhar ou a piada que disse sem falar. Ninguém tem as memórias daquele sítio que não tem outro interesse senão a nossa memória. Ninguém sabe por que quando passa aquela música nos esquecemos de que há mais gente.

Há dias em que não estamos apaixonados. Em que mal nos falamos e em que não trocamos olhares. Há segredos que não se partilham. Há roupas que não vestimos para agradar alguém senão nós mesmos. Há cores que não usamos porque os outros não gostam. Há comidas que não pedimos porque não vai dar para partilhar. Há dias em que perdemos a cabeça com tretas que duram desde sempre, mas naquele dia é que salta tampa. Há penteados que não se fazem. Há dias para tudo, e se não houver aqueles em que estamos madly in love, não é grave. Há tantos outros em que estamos. E saber que passamos juntos pelos ups and downs é amor.

Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da nossa vida. Quando nos irritarem a alma, chagarem a cabeça, fizerem ciúmes [ou os tiverem], quando se esquecerem das datas importantes ou espalharem meias pela casa, todos os dias das nossas vidas. Quando tivermos filhos, comprarmos casas ou nos morrer o cão, quando ganharmos o euromilhões ou perdermos o emprego, todos os dias das nossas vidas. Se estivermos juntos, para o que der e vier, todos os dias das nossas vidas. É isso o amor. E o amor nem sempre é feliz.

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