04 May 2016

do que eu tenho

Eu não sou tipa de me queixar muito, mas ando com ganas disso.

Entre a morte do meu Pai, um quisto mal amanhado no fundo das costas que deu direito a faca, kilómetros para cima e para baixo, trabalho que se empilhou e não cessa, uma ferida aberta que teima em fechar, decisões a tomar para futuros próximos, os miúdos que nem sempre trazem o melhor feedback da escola, o tempo que ora é isto ora é aquilo, dores de cabeça que me tiram o sono... abril foi duro. Deixou-me num caco e não tive ainda as forças para me queixar, nem tão pouco sei se é já altura de o fazer, se tudo já passou... Estou ainda à espera que tudo assente, que as nuvens levantem e o meu rabo se sente. Estou ainda à espera que a minha cabeça se organize, que faça um reset das últimas semanas. Tento não pensar muito sobre coisa nenhuma e deixar espaço para o essencial, mas ainda me assalta o medo e o desgosto antecipado, a aflição de saber que ainda me vou cruzar com a morte de tantos que amo.

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Temos que abrandar, temos que viver todos os clichés dos anúncios da tv, estar mais presentes, dizer amo-te, rir quando tivermos vontade e chorar quando é momento d'isso. Sem pudor, porque chorar faz bem, renova as energias, aclara a visão. Temos que pensar no que é realmente importante, temos que nos deixar ir no riso dos outros, temos que nos alegrar com eles. Temos que desligar do mundo e olhar para nós mesmos, fazer as tais viagens ao encontro de nós próprios, temos que dormir a saber que somos bons profissionais, bons pais, bons filhos, bons irmãos, bons amigos. Temos que aceitar as nossas limitações, combater os nossos vícios, medir as nossas ambições. Temos que parar com os julgamentos, com as parvoíces, com os amuos. Temos que concretizar os sonhos, subir as escadas, arregaçar mangas e levar avante os desafios. Temos que trabalhar e dar o litro nos dias piores como em todos os dias. Temos que aceitar que nem sempre somos os melhores da nossa rua. Temos que ser mais felizes. Temos que ser tão felizes quanto pudermos. Temos que saber perder, perder alguém, perder coisas, perder oportunidades, perder tempo. Temos que ser optimistas, positivos e pensar sempre que podia ser pior. Temos que sentir a dor e valorizar a saúde. E temos que deixar de acreditar que tudo tem uma razão de ser e um tempo certo - nada em nós está sincronizado, não há o momento certo, não há uma luz que se vê ao fundo, não há sinais subtis. Há a vida. Todos os dias da nossa vida.

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