16 May 2016

da escola

Tenho dois sons distintos para o email pessoal e o de trabalho. O de trabalho apita várias vezes, e é trabalho. O pessoal já não apita tanto e varia entre promoções, contas e emails da escola.
Portanto, a minha conta de email deixa-me nervosa... cada vez que apita vejo de quem vem, se vier da escola respiro fundo antes de abrir. Nem sempre são boas notícias ou recados gerais e rápidos. Algumas vezes são para me falar de umas crianças que eu não sei quem são... Consta que são meus filhos.
Contam-me coisas que eu não percebo, não reconheço neles. Contam-me que estão cansados e adormeceram na sala, que foram malcriados, que não fizeram qualquer coisa que deviam ter feito. Agradeço sempre a comunicação, respondo cordialmente e agradeço a diligência. Colaboro nas acções a tomar, nas coisas a fazer, nos castigos a impôr, mas dias há em que me apetece responder um chorrilho de palavrões, mandar dar a volta ao bilhar grande, perguntar que mais queriam?!

Eles vem cansados, eles vem carregados de trabalhos, eles também se sentem tristes e menos bem dispostos em algumas alturas. Eles também preferiam estar a fazer outras coisas! Mas não, estão lá todos os dias às 8h da manhã a serem alunos e a lidar com conflitos interiores que não têm ainda maturadidade para perceber. Também nós vimos muitas vezes contrariados para o escritório, também nós falhamos prazos, deixamos arrastar qualquer coisa ou fazemos, imagine-se!, coisas mal feitas! Mas nós temos já o estofo e a sabedoria para aguentar a bronca (na maioria dos dias pelo menos). Nós sabemos que precisamos daquilo. Mas as crianças?... as crianças têm ainda que ser seduzidas, têm que perceber o encanto que é aprender, têm que relativizar a frustração de ainda não saber qualquer coisa, têm que treinar o estudo e perceber, por si, que é estudando mais que tudo fica mais fácil. Acho que estamos todos a falhar quando nos lhes damos estes instrumentos. Quando os mandamos fazer qualquer coisa só "porque sim", quando os pomos na cama ainda com luz do dia, quando lhes gritamos porque não percebemos por que não percebem uma conta de subtrair básica ou porque insistem em pôr a perna do P acima da linha! Quando perdemos a cabeça, eles perdem muito mais. E todos perdemos tempo e vontade.

Falo por mim, da minha paciência, da minha tolerância e do que me contrario quando os mando estudar e fazer o sem fim de trabalhos que vêm da escola. Porque na verdade eu queria era relembrar o que tivessem aprendido na sala como se fosse um aventura, estar no parque, jantar sossegada e não os sentir frustrados cada vez que se fala na escola. Preferia que eles gostassem da história que leêm, que achassem piada à Matémática e tivessem curiosidade de saber mais, só porque sim. É onírico. Eles estudam porque tem que ser, eles saltam para o capítulo seguinte sem perceber o anterior, eles marram as coisas e nós não podemos baixar a guarda porque eles não gostam e não estamos a ter grande sucesso em fazê-los gostar... assim, à bruta, com imensa coisa para fazer e ainda ter que andar radiante e desperto logo pela manhã ficamos todos com dificuldades.

Eu sei que o A. se irrita facilmente e que é preguiçoso a desenhar letras. Eu sei que a X. precisa de dormir bem e que não é um Ás a matemática. Mas sei que não são nenhuns monstrinhos nem nenhuns burros! Sei que são crianças felizes e normais e que há dias, que se não fosse a escola, eram bem mais. E ultimamente isto deixa-me angustiada e cheia de pressa para que acabe este ano lectivo! Para estarmos todos um bocadinho descansados, até começar tudo de novo...


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