4.17.2017

da minha Mãe

Aquilo que eu não sei ainda, vou sempre a tempo de aprender. Só preciso de estar perto dos mestres.

Alguns já terão percebido, a outros já o terei dito abertamente, outros não perceberão nunca, mas de há uns meses para cá, assim de cabeça, há uns 12, custa-me ir ao Porto, umas vezes mais que outras. Só recentemente comecei a controlar as lágrimas gordas que querem cair quando passo as portagens. Houve alturas em que entrei na A1 com todo o entusiasmo e depois de passar Aveiro começo a ter uns calafrios e ao passar a portagem já só me apetece voltar para trás... Arrebito as costas e penso que não há-de ser para sempre. Sacudo as lágrimas e lá vamos. Mas muitas vezes vou de cara feia.

Não consigo que seja de outra forma, e juro que tento, mas quando dou por mim já perdi a oportunidade de me corrigir e explicar que não é nada de pessoal, que são só saudades do meu Pai, da minha Familia, dos meus amigos e que os quero muito mas não ali. 

E depois em fins de semana como este ponho os olhos na minha Mãe e cai-me a ficha. Como é que ela consegue tanto e eu nem passar da portagem em condições? Ponho os olhos na minha Mãe e vejo-a a limpar as lágrimas entre coser credenciais do querubim na farda, ou assoar o nariz antes de virar os 5 kilos de fiambre que prepara há 2 dias. Quando fecha os olhos e suspira com os bebés que embala.

E depois, de sorriso posto, abre a casa a quem vem, de braços abertos e palavras queridas. E manda vir mais por que quer a casa cheia e as pessoas felizes. E eu ainda não aprendi a fazer aquilo que ela faz tão bem, que lhe vem de dentro e que não sabe sequer que o faz - o ser boa, o ser realmente santa.
Na amarga ironia do aniversário do meu Pai morrer calhar ser o dia de Páscoa eu só queria fechar-me. Não dormi, como não durmo nas vésperas, nada de jeito e às 8h20 acordei e contei os minutos para ver a minha Mãe entrar no quarto. Enchi o peito e galopou o coração enquanto esperava. Passei por tudo outra vez. Mas não entrou.

E eu ganhei a força de me levantar, ir à cozinha e ver a minha Mãe já a adiantar qualquer coisa para o almoço.
Agarro a chavena e atesto de café. São 8h30 da manhã e ambas sabemos que a esta hora o telefone tocou há 1 ano e tirou-nos o fôlego. E chorámos juntas, sem palavras, sem conversas. E percebi então que nunca aquela casa vai ser a mesma, mas que nós somos. As mesmas. E eu só almejo ser mais como ela, a minha Mãe.

4.01.2017

do medo

Já estava contente com ter, finalmente, a máquina da roupa montada, a funcionar, por mim. Mas à página 23 dou-me por vencida. Ando nisto há 3 dias, e não queria por nada desistir. Mas desisti. Resumi-me à minha condição de mulher, iletrada, pouco forte ou hábil, o que se quiser, mas o resultado final é o mesmo: a porta da máquina fica de fora. Sento-me e fico numa irritação crescente a olhar ora para a máquina, ora para a porta. E penso que eu até conseguia mesmo acabar esta merda, mas se corre mal lixo a porta de vez, e sai cara a brincadeira...

Numa qualquer outra altura teria ido para a varanda fumar a minha irratação ou teria ido correr 5km. Não indo acabo a comer um bocado de pão e a pensar naquele cliché que sempre me deixou desconfortável, mas que é famoso q.b., a saber: tudo o que tu queres está do outro lado do medo. Normamente em inglês soa potentissimo!
E muito embora eu seja mega fã, já se sabe, destes mottos este nunca foi uma escolha. E explico por quê: é uma grande treta!

É falso e incompleto. Hoje, por exemplo, o que eu realmente queria estava para lá da minha capacidade.
Ene vezes o que nós queremos está para lá da responsabilidade, da honestidade, da competência, do dever, da razoabilidade, da paciência, do esforço, da motivação.... raramente é do medo. Eu não tenho medo de uma porta nem de uma chave de parafusos. E ainda assim fiquei sem o que realmente queria.

Eu não tenho medo andar a grande velocidade, por exemplo, mas está para além do legal e do responsável. Eu não tenho medo de dançar, mas está para além da minha disponibilidade.... e poderia continuar por aqui fora.
Porque raramente é o medo que me imobiliza. Que raio de ideia...




3.20.2017

do que se achava impossível

Há dias que demoram a passar. Aqueles que começam com pressa tarde ou nunca se endireitam.
E a vida corre nos entretantos. Em horas, dias e momentos que tanto parecem rápidos como agonizam na demora que levam. Não venho p'ra aqui com reflexões da treta, nem tão pouco tenho o tempo para isso. Mas vim e sabia que havia qualquer coisa que queria dizer, só não me lembro o quê.
Estou a ficar velha, é o que é. Preciso que o meus filhos me perguntem constantemente que idade tenho para ter a certeza de que não tenho mais 3 ou 4 do que aquilo que sinto. Porque os sinto, pesados nas pernas, na cintura que já foi, nas brancas que saltaram feitas cogumelos, nas olheiras que já se deixam ver. O tempo é igual para todos, sem dúvida, mas a força com que se abate em nós é diferente... Tem sido galopante, em mim.

(entretanto lembrei-me daquilo a que vim! raio da idade!)

Deixei de fumar! fez esta semana 1 mês! Isto é para mim fenomenal muito embora sinta a descrença todos os dias, ou em colegas, ou em casa ou mesmo em mim. Mas a verdade é que consegui. 1 mês é para mim um excelente marco. Acordo com a boca seca, ainda me apetece fumar, ainda me saltam pulmões quando corro, não sei o que fazer às mãos e ainda tenho 4 ou 5 minutos várias vezes ao dia em que me sinto a rebentar, mas assumo só que seja ainda detox... Ainda não me sinto renovada, mas sinto-me orgulhosa de mim. E como isso é coisa rara, achei que o devia partilhar com alguma vaidade - coisa que também não abunda em mim.

A quem estiver interessado em saber como, eu explico: tem que se querer. Há livros que ajudam, há medicamentos que ajudam, há pessoas que ajudam, mas se não quisermos, se não for decisão nossa, tudo o resto vai ser mais forte e em pouco tempo caímos no mesmo erro, na mesma doença.
Livro: Método Easyway de Allen Carr, hipnose: app Quit Smoking, Remédios: não vou nomear, porque variam imenso, pois claro. No meu caso não passou por qualquer substituto de nicotina mas sim por um estabilizador de humor (acho que se lhe pode chamar isso). Esta foi a variável que mais me surpreendeu. Porque me obrigou a olhar cá para dentro e não foi bonito de se ver. Mas resultou ou tem resultado, ajudou. E pessoas: um médico.

Não vou estar com moralismos a cantar de galo para os fumadores. Não vou fingir que sou já ex-fumadora (até porque todos os somos sempre que apagamos um cigarro), nem vou insistir e fazer campanha com ninguém. Queria apenas que soubessem que é possível. Que custa, claro que sim, mas que é possível e até fácil. Basta a consciência de que passamos bem sem isso. Basta conseguir controlar alguns acessos e temos toda uma vida pela frente. Mais longa conforme nos prometem os estudos e estatísticas. Assim, sem mais, basta querer, de facto.

Já antes estive aqui a dizer que seria a última cigarrilha, e depois dessa vieram umas centenas. Não posso fazer a promessa de que coisa nenhuma. Só posso prometer que ninguém ficaria pior do que eu, nem mais desapontado que eu, se eu voltasse a fumar. Façam as vossas apostas e se correr tudo bem, preparem-se para perder dinheiro, porque eu tenho apostado muito mais do que isso...




3.10.2017

da Mulher Portuguesa

A Mulher Portuguesa Tem um Bocado de Pena dos Homens

A mulher portuguesa não é só Fada do Lar, como Bruxa do Ar, Senhora do Mar e Menina Absolutamente Impossível de Domar. É melhor que o Homem Português, não por ser mulher, mas por ser mais portuguesa. Trabalha mais, sabe mais, quer mais e pode mais. Faz tudo mais à excepção de poucas actividades de discutível contribuição nacional (beber e comer de mais, ir ao futebol, etc). Portugal (i.e., os homens portugueses) pagam-lhe este serviço, pagando-lhes menos, ou até nada.
O pior defeito do Homem português é achar-se melhor e mais capaz que a Mulher. A maior qualidade da Mulher Portuguesa é não ligar nada a essas crassas generalizações, sabendo perfeitamente que não é verdade. Eis a primeira grande diferença: o Português liga muito à dicotomia Homem/Mulher; a Portuguesa não. O Português diz «O Homem isto, enquanto a Mulher aquilo». A Portuguesa diz «Depende». A única distinção que faz a Mulher Portuguesa é dizer, regra geral, que gosta mais dos homens do que das mulheres. E, como gostos não se discutem, é essa a única generalização indiscutível.
A Mulher Portuguesa é o oposto do que o Homem Português pensa. Também nesta frase se confirma a ideia de que o Homem pensa e a Mulher é, o Homem acha e a Mulher julga, o Homem racionaliza e a Mulher raciocina. E mais: mesmo esta distinção básica é feita porque este artigo não foi escrito por uma Mulher.
Porque é que aquilo que o Homem pensa que a Mulher é, é o oposto daquilo que a Mulher é, se cada Homem conhece de perto pelo menos uma Mulher? Porque o Português, para mal dele, julga sempre que a Mulher «dele» é diferente de todas as outras mulheres (um pouco como também acha, e faz gala disso, que ele é igual a todos os homens). A Mulher dele é selvagem mas as outras são mansas. A Mulher dele é fogo, ciúme, argúcia, domínio, cuidado. As outras são todas mais tépidas, parvas, galinhas, boazinhas, compreensíveis.
Ora a Mulher Portuguesa é tudo menos «compreensiva». Ou por outra: compreende, compreende perfeitamente, mas não aceita. Se perdoa é porque começa a menosprezar, a perder as ilusões, e a paciência. Para ela, a reacção mais violenta não é a raiva nem o ódio – é a indiferença. Se não se vinga não é por ser «boazinha» – é porque acha que não vale a pena.
A Mulher Portuguesa, sobretudo, atura o Homem. E o Homem, casca grossa, não compreende o vexame enorme que é ser aturado, juntamente com as crianças, o clima e os animais domésticos. Aturar alguém é o mesmo que dizer «coitadinho, ele não passa disto…» No fundo não é mais do que um acto de compaixão. A Mulher Portuguesa tem um bocado de pena dos Homens. E nisto, convenhamos, tem um bocado de razão.
O que safa o Homem, para além da pena, é a Mulher achar-lhe uma certa graça. A Mulher não pensa que este achar-graça é uma expressão superior da sua sensibilidade – pelo contrário, diverte-se com a ideia de ser oriundo de uma baixeza instintiva e pré-civilizacional, mas engraçada. Considera que aquilo que a leva a gostar de um Homem é uma fraqueza, um fenómeno puramente neuro-vegetativo ou para-simpático – enfim, pulsões alegres ou tristemente irresistíveis, sem qualquer valor.
E chegamos a outra característica importante. É que a Mulher Portuguesa, se pudesse cingir-se ao domínio da sua inteligência e mais pura vontade, nunca se meteria com Homem nenhum. Para quê? Se já sabe o que o Homem é? Aliás, não fossem certas questões desprezíveis da Natureza, passa muito bem sem os homens. No fundo encara-os como um fumador inveterado encara os cigarros: «Eu não devia, mas.. » E, como assim é, e não há nada a fazer, fuma-os alegremente com a atitude sã e filosófica do «Que se lixe».
Homens, em contrapartida, não podiam ser mais dependentes. Esta dependência, este ar desastrado e carente que nos está na cara, também vai fomentando alguma compaixão da parte das mulheres. A Mulher Portuguesa também atura o Homem porque acha que «ele sozinho, coitado; não se governava». O ditado «Quem manda na casa é ela, quem manda nela sou eu» é uma expressão da vacuidade do machismo português. A Mulher governa realmente o que é preciso governar, enquanto o homem, por abstracção ou inutilidade, se contenta com a aparência idiota de «mandar» nela. Mas ninguém manda nela. Quando muito, ela deixa que ele retenha a impressão de mandar. Porque ele, coitado, liga muito a essas coisas. Porque ele vive atormentado pelo terror que seria os amigos verificarem que ele, na realidade, não só na rua como em casa não «manda» absolutamente nada. «Mandar» é como «enviar» – é preciso ter algo para mandar e algo ao qual mandar. Esses algos são as mulheres que fazem.
O Homem é apenas alguém armado em carteiro. É o carteiro que está convencido que escreveu as cartas todas que diariamente entrega. A Mulher é a remetente e a destinatária que lhe alimenta essa ilusão, porque também não lhe faz diferença absolutamente nenhuma. Abre a porta de casa e diz «Muito obrigada». É quase uma questão de educação.
A imagem da «Mulher Portuguesa» que os homens portugueses fabricaram é apenas uma imagem da mulher com a qual eles realmente seriam capazes de se sentirem superiores. Uma galinha. Que dizer de um homem que é domador de galinhas, porque os outros animais lhe metem medo?
Na realidade, A Mulher Portuguesa é uma leoa que, por força das circunstâncias, sabe imitar a voz das galinhas, porque o rugir dela mete medo ao parceiro. Quando perdem a paciência, ou se cansam, cuidado. A Mulher portuguesa zangada não é o «Agarrem-me senão eu mato-o» dos homens: agarra mesmo, e mata mesmo. Se a Padeira de Aljubarrota fosse padeiro, é provável que se pusesse antes a envenenar os pães e ir servi-los aos castelhanos, em vez de sair porta fora com a pá na mão. 

Miguel Esteves Cardoso, in ' A Causa das Coisas '
janeiro de 1998


3.01.2017

a estrada

Na estrada para ser feliz nunca quis mal a ninguém
Nesta vida já me chegam bem os espinhos que ela tem Mas lá calha ser ingrato e infantil
Por ter a cabeça a cem e o coração a mil Não escolhemos quem nascemos mas escolhemos quem crescemos E no muito que nós somos há tanto que nós não vemos Percebemos só quando não estamos sós Que o que nós nunca nos vemos os outros vêm em nós. Egoístas altruístas, obcessivos compulsivos lários necessários desta coisa de estar vivos E quebramos e choramos e afinal encontramos tanta gente que é exactamente igual Mas nem sempre isso nos chega para acalmar as tempestades E a dureza da amargura é a mais dura das verdades É esquisito mas funciona bem assim Precisar que tu me ajudes a dar-te o melhor de mim Precisar que tu me ajudes a dar-te o melhor de mim. Na estrada para ser feliz eu confundo a direcção E acelero em marcha-atrás até alguém me pôr a mão Tem havido sempre essa força maior Mas se algum dia ela falha, vai-se o carro e o conductor Ainda assim não desisti de ir lançando o carro à estrada Sonhei demais com a viagem para que ela não dê em nada Se chegarem novas de que me perdi Levo tanta coisa boa do pouco que percorri. Não é certo que o meu corpo faça aquilo que eu digo Nuns dias tenho coragem e nos outros não consigo Se nos está nos genes deve ser genial Um retoque bioquímico ao plano original Tenho sorte nas pessoas que a vida me vai escolhendo E se tenho algum problema é só porque não aprendo Que a ninguém é entregue tudo o que quis É tudo arrancado a ferros na estrada para ser feliz Mas isto só faz sentido na estrada para ser feliz.

by Anaquim

12.15.2016

do facebook

O facebook é muito lindo. Tudo em contacto, likes e corações por todo o lado. Declarações de amor, gritos de guerra, debates políticos, ideias brilhantes. Gente que nunca imaginei voltar a "encontrar", gente que nunca vi na vida, amigos de sempre, alguns talvez para sempre.
Mas eu cansei-me. Eu estou cansada de ficar mais triste do que alegre, de ver mais desgraças do que boas novidades, de cuscar e ser cuscada, de ver picanços e piropos. Dicas de bons negócios, contactos perdidos, desabafos ou coisas que nunca cheguei a perceber, vídeos hilariantes e cenas horripilantes.

Sempre gostei mais do instagram, e uma imagem vale por mil palavras. Mas as imagens que o facebook me tem trazido são horríveis, são a realidade. Ou são porcas ou sem piada. São inúteis.
Não me levem a mal os "amigos". Adoro ver os bebés 2 minutos depois de nascerem, da ajuda preciosa no meu calendário de aniversários, saber das vossas alegrias e das tristezas.
Adorei partilhar as minhas alegrias e as minhas tristezas e obrigada por toda a atenção que lhes prestaram em tempo devido.

Foste bom facebook, mas agora abusas da publicidade e as pessoas abusam da realidade e eu não aguento tanto. Aliás, aguentar até aguentaria, mas não estou para isso, agora não.
Vais fazer-me falta, muita concerteza, mas depois talvez me habitue. Talvez pegue mais no telefone e tome mais cafés. Talvez tenha mais abraços e beijos. Prefiro isso aos likes, trocava-os todos.
Não vou desistir de ti, vou, para já, desistir de nós.

Estava aqui a uns cliques de te pôr de lado e só pensava no que vou perder [além de que me devia, se calhar, justificar, coisa que aqui faço]. Dediquei uns minutos a ver o outro lado: o que vou ganhar. Vou ganhar-me a mim, vou ganhar tempo, vou descobrir-me melhor, vou ver os sítios na versão real, vou encostar a barriga ao fogão e provar as receitas. Vou estar out de muita coisa, mas conto estar in em mim. Vamos a isto... depois logo se vê se ainda nos damos. Até lá, não nos incomodemos mais.



11.16.2016

da televisão

Já há muito tempo, há uns meses vá, que lá em casa não se vê televisão sem mais nem menos. Que não se chega da escola e se corre para a sala dos brinquedos desenfreado para ver qualquer coisa.
Sim, os meus filhos, um mais que outros, colam, paralisam e bloqueiam com "qualquer coisa" que venha de uma fonte energética, vulgo, tv, ipad, tlm, you name it...

Tínhamos esta preocupação há algum tempo e tirar-lhes a televisão da sala foi e é ainda um desafio. Houve choro, gritos, e "odeio esta família!" Houve "o que é que eu hei-de fazer?" e "não tenho nada para fazer" dias sem fim - sim, se calhar não devíamos ter arrancado com este projecto a meio das férias!

Agora estão ocupados com TPC's, natação e volei, catequese ou ir ao parque. Ajudam no jantar, demoram mais nos banhos, leêm mais livros e coleccionam, de facto, cromos. Aprenderam a ocupar-se e fez-lhes bem. A todos os níveis. E como eu própria não vejo televisão não foi difícil dar-lhes ideias de coisas para fazer sem ser "especar".

Estamos numa fase em que cada um gosta de programas diferentes e conciliar os 3 é só mesmo com filmes. Já não há um consenso no canal que querem ver, o que nos facilita bastante a vida. Nos tempos em que podem ver televisão, temos uma lista pré-definida onde se encontram só e apenas canais para crianças e ainda tinha a MTV para ouvirem música até ver alguns videoclips e perceber que era má ideia... o Biggs não está na nossa lista. Nunca gostei do canal e nenhum dos miúdos pareceu querer ver alguma coisa em especial que lá passasse. Menos mal. Já só nos falta cortar o cartoon network...

Eis quando senão nos vemos confrontados com este episódio (ver minuto 12) de um desenho animado que lá passa. Preparem-se para ficarem enojados, enjoados e seriamente preocupados. Nós estamos!
E rezem para que as vossas crianças nunca se cruzem com qualquer coisa do género. Eu rezo.

Todos os dias tenho que pensar em como dizer algumas coisas às crianças. Uma das que nos preocupa é eles perceberem o que é abuso, o que é normal para um adulto fazer ou não. Quando é devem fugir, confiar... A luta e os desafios são cada vez piores: a X. pede uma conta no FB e um telemovel;  o B. anda com medo que morramos e pergunta entre lágrimas gordas "que vai ser de mim se vocês morrerem?..." ; o L. põe moedas nos bolsos e traz coisas da escola como se de ninguém fossem e não entende que isso é roubar!

E no meio da confusão que vai nas nossas cabeças, de não saber como passar algumas mensagens tão básicas e essenciais para o resto da vida deles e da nossa, eis que surge isto. Já me tinha aparecido no mural do FB mas não dei grande importância. Até o A. me perguntar de novo se lá em casa tínhamos este canal e eu ver o vídeo para tentar perceber o porquê de tanto pânico. E percebi.
Sinto-me - além do tudo acima mencionado - desconcertada com a normalidade.

das vésperas

Já me confessei um bocado choramingas, choro em espelho, choro baixinho e sem momento certo. Não tenho por hábito, mas acontece que assim é e já desisti há anos de me contrariar. 

Quis o destino que na minha segunda semana de convalescença eu tivesse a companhia, alternada, dos meus filhos em casa. Ora febres, ora dentes arrancados, foram passando o dia comigo. Eu de lado num sofá, eles derreados pela febre ou mau-estar, ambiente pasmacento em que pouco há que fazer senão ver filmes non-stop. Clássicos da Disney, alguns novidade para mim, a saber, Entrelaçados.
Há uma cena em que um pai, o Rei, chora pela filha desaparecida há 18 anos, no seu dia de anos, aquele em que em memória dela se lançam lanternas lindas ao céu. São uns segundos e foram mais que suficientes para ficar perturbada, para chorar, para sentir a garganta dorida e a cara vermelha. O A. não estava comigo a primeira vez que vi a cena, escapei. Mas estava connosco quando a vi a segunda vez (sim, cada filme 3 ou 4 vezes...) e claro está, gozou-me. E em coro a X. gozou-me também. E eu fiquei com vergonha. Com desconforto dos meus filhos me verem chorar (não faz sentido, mas pelos visto terei vergonha de mais coisas do que imaginava, tipo, ter vergonha de ter dor! pensarei um bocado mais sobre isto...)

Talvez tenham achado que era apenas mais uma cena daquelas lamechas em que deito sempre uma lágrima, talvez achassem que estava naquela altura do mês e aliada à cratera que trago no fundo das costas, aquele suspiro do Rei foi a gota d'água. Talvez. Mas sinto que não. Foi um Pai a chorar por uma filha, 18 anos depois. Foi a minha constatação de daqui a 18 anos anos, vou chorar. Foi saber que o mau estar que tive esta noite, como tenho tido todos os dias 15, a emoção à flor da pele nesta semana, o andar de preto sem o pensar, como se tivesse sido hoje... daqui a 18 anos, sem quisto, sem disney, vou chorar como choro hoje. Já aconteceu não me lembrar que era dia 15, a véspera, até sentir que dormi mal, tive o impulso de me vestir de preto, estar triste ou simplesmente chorar. Aí cai a ficha.


Não ando deprimida, e ainda hoje disse ao A. que sim, sou feliz, mas hoje, hoje vai doer sempre.
E só passaram 7 meses. 7 meses em que nasceram bebés, passou-se de ano com boas notas, assinaram-se novos contratos, fraquejaram amizades e abriram-se horizontes.  Sinto-me diferente. Não consigo julgar-me e saber se ando assim há 7 meses. Acho que não mudei, mas chega o dia de hoje e inevitavelmente faço o balanço, uma introspecção só para confirmar que não estou, de facto, deprimida. Dou os abraços mais fortes, digo mais as coisas? [devia dizer.]  Ainda outro dia me perguntava a anestesista se eu era uma pessoa nervosa. Demorei uns segundos a responder e terá ela achado que eu não percebi a pergunta e reformulou: é uma pessoa calma ou quer alguma coisa para não ficar ansiosa?... Agradeci, não quero não, mas queria ter acrescentado: 1) ansiosa e calma são opostos? 2) é porque eu demorei a responder porque não era nada calma sabe? até bastante impaciente se calhar, mas agora?... sou a paz em pessoa, ando calma. Não sei se andarei ansiosa, lá está...

Não tarda andamos a correr atrás do natal e eu devia estar ansiosa com os presentes, mas só consigo pensar em como será este natal e ficar grata por a véspera ser dia 24.





9.26.2016

do amor.


Em conversa de treta dizia alguém que conhecia os avós como tendo sido felizes o casamento todo - ainda dizia que era sorte! Parvoíce, ilusão, infantilidade, cegueira ou show-off. O que quisermos menos a verdade dos dias que conheço, das pessoas que me rodeiam, daquilo que somos.

Ninguém está feliz todos os dias, ninguém está sempre apaixonado, ninguém está imune da confusão que pode ser o amor. Mas todos passamos por lá. Pelo amor e pela confusão. E se de facto não tivermos uma delas há qualquer coisa errada.  Todos estamos de trombas hoje para estar perdido de amor amanhã.  Todos nos deitamos em alguma altura com vontade de ter a cama vazia e numa outra altura com vontade de acordar quem está ao lado, no meio da noite, sem pretexto, sem aviso, sem preliminares. Todos cedemos em qualquer coisa e batemos o pé noutra.
A garantia de que chegando ao fim do dia, estamos lá, juntos, é tão boa quanto poderá não ser.

Não é sorte. A sorte termina depois de nos encontrarmos uns aos outros. A partir daí é paixão e se durar uma vida, foi amor. E ou se ama ou não se ama [ponto final]. Não há filhos, dinheiro, logísticas, família ou aparências que tragam mais ou menos amor.  Os filhos, a logística, o dinheiro e as famílias são manutenção de uma relação, não são poção de amor. Ninguém mais tem que nos aturar desgrenhados de manhã. Ninguém mais tolera o beijo com o hálito de café ou tabaco ou caril. Ninguém mais sabe em que ponto do corpo não se pode tocar e aquele em que depois de tocar já não se pára. Ninguém mais percebe o olhar ou a piada que disse sem falar. Ninguém tem as memórias daquele sítio que não tem outro interesse senão a nossa memória. Ninguém sabe por que quando passa aquela música nos esquecemos de que há mais gente.

Há dias em que não estamos apaixonados. Em que mal nos falamos e em que não trocamos olhares. Há segredos que não se partilham. Há roupas que não vestimos para agradar alguém senão nós mesmos. Há cores que não usamos porque os outros não gostam. Há comidas que não pedimos porque não vai dar para partilhar. Há dias em que perdemos a cabeça com tretas que duram desde sempre, mas naquele dia é que salta tampa. Há penteados que não se fazem. Há dias para tudo, e se não houver aqueles em que estamos madly in love, não é grave. Há tantos outros em que estamos. E saber que passamos juntos pelos ups and downs é amor.

Na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias da nossa vida. Quando nos irritarem a alma, chagarem a cabeça, fizerem ciúmes [ou os tiverem], quando se esquecerem das datas importantes ou espalharem meias pela casa, todos os dias das nossas vidas. Quando tivermos filhos, comprarmos casas ou nos morrer o cão, quando ganharmos o euromilhões ou perdermos o emprego, todos os dias das nossas vidas. Se estivermos juntos, para o que der e vier, todos os dias das nossas vidas. É isso o amor. E o amor nem sempre é feliz.

8.31.2016

it's been a while

it's been a while.

Estou naqueles 15 minutos de procrastinação e penso, e sei, que há muito tempo que não venho aqui. Há ene razões, não tenho que me justificar, mas entre muito trabalho, muitas viagens, muita tristeza, muitas alegrias, muita coisa, não vim. Venho agora.  Não sei bem que venho cá fazer em boa verdade.

Continuo sem ver noticiários e ler telejornais, pelo que a realidade é-me, ainda bem, alheia na sua quase maioria. Continuo com uma saudade dolorosa do meu Pai e ainda choro quando penso nele. Continuo a ter trabalho e nem sendo Agosto abrandou grande coisa. Continuo a prezar e a sentir-me grata pelos amigos que tenho. Continuo a amar a minha família acima de todas as coisas. Continuo.

Estamos numa daquelas semanas kidless. Os miúdos estão em grande com os Avós e muito em breve estarão de volta para o arranque de mais um ano. Para a semana já rumamos a um qualquer hipermercado com uma lista mal amanhada do material de que vão precisar e sei que o L. ficará fulo de, apesar de ir para a escola dos grandes, não ter lista de material. Sinto que estão descansados, o ano passado foi puxado para todos e contamos que este ano seja um bocadinho mais soft. A X. vai para o 4º, o B. para o 2º, deverá ser pacífico. Se não for, pois... cá estamos, como sempre.

Nós os grandes estamos a trabalhar, com menos stress que o ano passado, em que nesta altura se estudava afincadamente. Desta vez não. As férias foram mesmo férias. E todos gozámos disso. Com os amigos, com a nossa grupeta onde nos sentimos bem, com quem não se faz cerimónias, com quem contamos sempre. Com quem me ri e chorei. Férias com as famílias, com um sentimento agridoce de haver novos corações mas menos um tão grande. Férias em que nos esforçámos para que fossem tão boas como sempre, em que jogámos canastas, demos bombas na piscina, cozinhámos mega pratos, recebemos visitas e montámos tendas, mudámos fraldas e demos biberons, fizemos jincanas e discutimos sobre os incêndios, demos palpites sobre as burkas, brincámos com os miúdos e demos os ralhetes da praxe. Mas, inevitavelmente, havia uns segundos de silêncio, de olhos molhados e eu sei que todos pensávamos no mesmo. Duvido que isto venha a mudar.

Acabou a pausa, volto para a janela do lado, preparo propostas, respondo a inquéritos, conto cabeças e faço relatórios. Hoje é dia disso.

6.28.2016

do bidé

Com areia entre os dedos, em esquema escapadinha, discutia-se as amizades, de onde vêm, se deram nalguma coisa... Desde as escolas, aos campos de férias, ao café da rua, os grupos no Porto formaram-se e foram mudando pouco ao longo do tempo. Eu não sou velha e pouco mudei de grupos e se o fiz foi efeito colateral (da faculdade, do trabalho, do casamento, da idade) e só ganhei com isso.
O Porto é um bidé, e não indo ao cumúlo de me dar só com o código postal 4150, a verdade é que a maioria das pessoas só mudou o código depois de casar ou foi estudar / trabalhar para fora.

Há sempre namorados (ou semelhantes) em comum, há sempre uma actividade (nem que seja sair à noite) onde nos cruzávamos, há sempre a prima da amiga da filha do tio da mãe, há sempre uma mega festa a que poucos não foram e que foi o ínicio do nosso ciclo social. Há sempre o sítio onde se passava férias ou aonde se ía à Missa. Há sempre a mulher do melhor amigo do marido que depois até fica a tua melhor amiga. Há sempre pontos que se tocam no nosso bidé.

Grata por todos eles, pelos que vieram do meu código ou dos que vieram de mais acima ou mais ao lado, dos que casaram e dos que tenho pena de não conhecer há mais tempo. Por vezes convenço-me de que já dei toda a amizade que tinha para dar e depois sinto que não, há sempre lugar para mais e há sempre alguns que vão ficando pelo caminho. No bidé ou fora dele. Na Foz, no Pinheiro Manso, em Matosinhos, Belém ou Alvalade. Accuintances antigas que são agora o meu círculo, gente nova que parece que vêm dé há anos atrás! A minha gente.

6.07.2016

da fotografia

Ene vezes perdemos tempo em coisas estúpidas. Ene vezes procrastinamos com notícias insólitas ou de mera curiosidade, sem qualquer factor, de facto, informativo. Eu assumo, proscrastino com desafios no FB, rio-me com a Imprensa Falsa, respondo a questionários infantis como fazia no tempo da Ragazza, e muitas vezes leio os comentários alheios. Hoje deparei-me com um desses momentos no Observador, app que tenho e que me agrada porque varia um bocado entre o que é realmente importante ou inútil. 
Numa das peças de hoje lançava o desafio de perceber o que estaria de errado com esta fotografia:

Lembremo-nos que há não muito tempo houve um "virus" semelhante com um charuto enfiado num muro. Também com essa fotografia perdi tempo a perceber o que seria, e só depois de ler a peça é que lá vi o charuto.... Mas o que me faz pensar um bocadinho mais sobre a peça de hoje, sobre esta fotografia, não é a fotografia em si. Heads-up, não percam muito mais que 1 minuto a olhar para ela. O que interessa não está lá... O que interessa é a facilidade com que, de facto, se começa uma saga na internet e o que podemos aprender daí.
Entre os comentários que li ao post do Observador, a maioria, centrava-se na irrelevância desta notícia, no mau que era até o Observador alinhar nestas "palhaçadas".

Ora eu não leio muitas notícias, ignoro muita coisa da actualidade, mas desta em particular, tirei conclusões brilhantes. A saber:
1) Continuo a gostar do Observador!
2) acho idiota, no minimo, não se perceber que a ideia da peça era mesmo fazer-nos pensar no que se vende.
3) acho muito limitante que não se consiga pegar nisto e perceber como se fazem tantas notícias, tantas histórias mal contadas na nossa vida, tantas imagens que fora de contexto não fazem qualquer sentido. A facilidade com que se começa uma saga que não é coisa nenhuma senão barulho.
4) o contexto desta imagem é mesmo este: somos parvos, somos ingénuos e acreditamos em tudo o que vemos. E pior, raramente nos damos ao trabalho de responder às perguntas, queremos que respondam por nós e não questionamos as respostas...
5) raramente nos damos ao trabalho de ler, saber, perguntar até ao fim e não o sabemos, portanto.
6) há idiotas que até hoje olham para a fotografia e não perceberam ainda o que há de errado com ela...


5.31.2016

de catch and release

There's a place I go to
Where no one knows me
It's not lonely
It's a necessary thing
It's a place I made up
Find out what I'm made of
The nights are stayed up
Counting stars and fighting sleep


Let it wash over me
Ready to lose my feet
Take me on to the place where one reviews life's mistery
Steady on down the line
Lose every sense of time
Take it all in and wake up that small part of me
Day to day I'm blind to see
And find how far
To go

Everybody got their reason
Everybody got their way
We're just catching and releasing
What builds up throughout the day

It gets into your body
And it flows right through your blood
We can tell each other secrets
And remember how to love
There's a place I'm going
No one knows me
If I breathe real slowly
Let it out and let it in
They can be terrifying
To be slowly dying
Also clarifying
The end where we begin

So let it wash over me
I'm ready to lose my feet
Take me on to the place where one reviews life's mistery
Steady on down the line
Lose every sense of time
Take it all in and wake up that small part of me
Day to day I'm blind to see
And find how far
To go

Everybody got their reason
Everybody got their way
We're just catching and releasing
What builds up throughout the day

It gets into your body
And it flows right through your blood
We can tell each other secrets
And remember how to love
Everybody got their reason

Everybody got their way
We're just catching and releasing
What builds up throughout the day

And it gets into your body
And it flows right through your blood
We can tell each other secrets
And remember how to love

Matt Simons

5.30.2016

do telefonema

Hoje o meu Pai ligou-me.
No meu íntimo achei mesmo que pudesse mesmo ser ele, que eu tinha estado num transe qualquer marado e que aquela era uma wake-up-call. Foram só uns segundos, os suficientes para acelerar o coração, sorrir, ficar com as palmas das mãos suadas, atender (olá Mãe, sim tem que escolher ligar do seu cartão que esse telemóvel tem os dois ao mesmo tempo) e chorar. Depois do soco no estômago, depois do desconcerto e da constatação recompus-me. Ele morreu, não há volta a dar. E por algum motivo meio estranho ainda não tive coragem de apagar o número de telemóvel. Ainda não apaguei as mensagens que trocámos. Ainda me dói tanto quando me lembro de que ele já cá não está, como se tivesse sido hoje de manhã.
Todos os dias me lembro de qualquer coisa que ele ia adorar, alguém com quem ele se iria pegar, uma rabugice qualquer que ia dizer. 
Sei que um dia passará de dor a saudade, mas não sei quando e não tenho ainda presente a sua ausência. Ainda tenho o instinto de ir ao quarto quando chego a casa dos meus pais ou de perguntar por ele quando falo com a minha Mãe. E mesmo a tempo mordo os lábios e engulo em seco. Ele morreu. Ainda hesito em ocupar aquele sofá não vá querer ele vir do quarto ver qualquer coisa na televisão. Ainda deixo as bebidas dele no frigorífico para estarem sempre frescas. Arrumámos tudo, distribuímos as coisas, partilhamos memórias, e ainda assim sei que não me convenci porque não quis ainda apagar o telemóvel dele, que sei de cor, mas que não consigo apagar. E hoje ele ligou-me. E eu ainda não apaguei o número.

5.16.2016

da escola

Tenho dois sons distintos para o email pessoal e o de trabalho. O de trabalho apita várias vezes, e é trabalho. O pessoal já não apita tanto e varia entre promoções, contas e emails da escola.
Portanto, a minha conta de email deixa-me nervosa... cada vez que apita vejo de quem vem, se vier da escola respiro fundo antes de abrir. Nem sempre são boas notícias ou recados gerais e rápidos. Algumas vezes são para me falar de umas crianças que eu não sei quem são... Consta que são meus filhos.
Contam-me coisas que eu não percebo, não reconheço neles. Contam-me que estão cansados e adormeceram na sala, que foram malcriados, que não fizeram qualquer coisa que deviam ter feito. Agradeço sempre a comunicação, respondo cordialmente e agradeço a diligência. Colaboro nas acções a tomar, nas coisas a fazer, nos castigos a impôr, mas dias há em que me apetece responder um chorrilho de palavrões, mandar dar a volta ao bilhar grande, perguntar que mais queriam?!

Eles vem cansados, eles vem carregados de trabalhos, eles também se sentem tristes e menos bem dispostos em algumas alturas. Eles também preferiam estar a fazer outras coisas! Mas não, estão lá todos os dias às 8h da manhã a serem alunos e a lidar com conflitos interiores que não têm ainda maturadidade para perceber. Também nós vimos muitas vezes contrariados para o escritório, também nós falhamos prazos, deixamos arrastar qualquer coisa ou fazemos, imagine-se!, coisas mal feitas! Mas nós temos já o estofo e a sabedoria para aguentar a bronca (na maioria dos dias pelo menos). Nós sabemos que precisamos daquilo. Mas as crianças?... as crianças têm ainda que ser seduzidas, têm que perceber o encanto que é aprender, têm que relativizar a frustração de ainda não saber qualquer coisa, têm que treinar o estudo e perceber, por si, que é estudando mais que tudo fica mais fácil. Acho que estamos todos a falhar quando nos lhes damos estes instrumentos. Quando os mandamos fazer qualquer coisa só "porque sim", quando os pomos na cama ainda com luz do dia, quando lhes gritamos porque não percebemos por que não percebem uma conta de subtrair básica ou porque insistem em pôr a perna do P acima da linha! Quando perdemos a cabeça, eles perdem muito mais. E todos perdemos tempo e vontade.

Falo por mim, da minha paciência, da minha tolerância e do que me contrario quando os mando estudar e fazer o sem fim de trabalhos que vêm da escola. Porque na verdade eu queria era relembrar o que tivessem aprendido na sala como se fosse um aventura, estar no parque, jantar sossegada e não os sentir frustrados cada vez que se fala na escola. Preferia que eles gostassem da história que leêm, que achassem piada à Matémática e tivessem curiosidade de saber mais, só porque sim. É onírico. Eles estudam porque tem que ser, eles saltam para o capítulo seguinte sem perceber o anterior, eles marram as coisas e nós não podemos baixar a guarda porque eles não gostam e não estamos a ter grande sucesso em fazê-los gostar... assim, à bruta, com imensa coisa para fazer e ainda ter que andar radiante e desperto logo pela manhã ficamos todos com dificuldades.

Eu sei que o A. se irrita facilmente e que é preguiçoso a desenhar letras. Eu sei que a X. precisa de dormir bem e que não é um Ás a matemática. Mas sei que não são nenhuns monstrinhos nem nenhuns burros! Sei que são crianças felizes e normais e que há dias, que se não fosse a escola, eram bem mais. E ultimamente isto deixa-me angustiada e cheia de pressa para que acabe este ano lectivo! Para estarmos todos um bocadinho descansados, até começar tudo de novo...


5.04.2016

do que eu tenho

Eu não sou tipa de me queixar muito, mas ando com ganas disso.

Entre a morte do meu Pai, um quisto mal amanhado no fundo das costas que deu direito a faca, kilómetros para cima e para baixo, trabalho que se empilhou e não cessa, uma ferida aberta que teima em fechar, decisões a tomar para futuros próximos, os miúdos que nem sempre trazem o melhor feedback da escola, o tempo que ora é isto ora é aquilo, dores de cabeça que me tiram o sono... abril foi duro. Deixou-me num caco e não tive ainda as forças para me queixar, nem tão pouco sei se é já altura de o fazer, se tudo já passou... Estou ainda à espera que tudo assente, que as nuvens levantem e o meu rabo se sente. Estou ainda à espera que a minha cabeça se organize, que faça um reset das últimas semanas. Tento não pensar muito sobre coisa nenhuma e deixar espaço para o essencial, mas ainda me assalta o medo e o desgosto antecipado, a aflição de saber que ainda me vou cruzar com a morte de tantos que amo.

----- * -----


Temos que abrandar, temos que viver todos os clichés dos anúncios da tv, estar mais presentes, dizer amo-te, rir quando tivermos vontade e chorar quando é momento d'isso. Sem pudor, porque chorar faz bem, renova as energias, aclara a visão. Temos que pensar no que é realmente importante, temos que nos deixar ir no riso dos outros, temos que nos alegrar com eles. Temos que desligar do mundo e olhar para nós mesmos, fazer as tais viagens ao encontro de nós próprios, temos que dormir a saber que somos bons profissionais, bons pais, bons filhos, bons irmãos, bons amigos. Temos que aceitar as nossas limitações, combater os nossos vícios, medir as nossas ambições. Temos que parar com os julgamentos, com as parvoíces, com os amuos. Temos que concretizar os sonhos, subir as escadas, arregaçar mangas e levar avante os desafios. Temos que trabalhar e dar o litro nos dias piores como em todos os dias. Temos que aceitar que nem sempre somos os melhores da nossa rua. Temos que ser mais felizes. Temos que ser tão felizes quanto pudermos. Temos que saber perder, perder alguém, perder coisas, perder oportunidades, perder tempo. Temos que ser optimistas, positivos e pensar sempre que podia ser pior. Temos que sentir a dor e valorizar a saúde. E temos que deixar de acreditar que tudo tem uma razão de ser e um tempo certo - nada em nós está sincronizado, não há o momento certo, não há uma luz que se vê ao fundo, não há sinais subtis. Há a vida. Todos os dias da nossa vida.

4.22.2016

do fim.

Nunca gostei da forma como o meu corpo materializa a dor. Quando o A. sai em viagem eu fico com enxaqueca. De uma forma estranhamente proporcional, o meu Pai morre e eu acabo a ser operada... agonio em dor na alma e o corpo faz-se acompanhar.

Não me apetece falar muito mais sobre o assunto, na verdade não me apetece falar de todo. 

Mas o meu Pai havia de ter aqui o seu momento. Gostava de blogs, lia vários e deliciava-se na nostalgia que lhe traziam. Vivia de memórias, de histórias e de História. Não sabia um pouco de tudo mas dominava História, a única disciplina em que nos conseguia ajudar em tempo de testes. E claro, assinava os testes com más notas porque não nos ralhava tanto... sempre foi mais brando, talvez porque também ele asneirava muito e nós sabíamos. Era um coração mole, e no meio de tanta coisa poucos saberiam disso, que ele era meigo e terno. Lembro-me de nos encher de beijos. lembro-me de dormitar na barriga dele e não fazer muita força para não lhe tirar o ar. de nadar nas costas dele e passar os dedos na cicatriz que lhe atravessava o corpo sem nunca perceber de onde vinha. Lembro-me de tanta coisa.
Levo marcas desta semana. A mais memorável é que as mortes anunciadas não são mais fáceis, não doem menos, não passam mais depressa...



4.13.2016

do beijo

Lá está, dias de coisas... não vá eu esquecer-me de alguma!
Vou refletindo sobre isso enquanto a Rádio Comercial repete vezes sem conta que hoje é o dia do: beijo. Eles perceberam tudo mal e consta que andam nas ruas a dar beijinhos a torto e a direito... mas não é nada disso!
O beijo é só o melhor do mundo! Não aquela coisa rápida e com cheiro a cereais que se dá a correr antes de sair de manhã, não o beijinho grão-de-bico que damos aos nossos tios, e jamais o beijinho escusado que um gerente de conta bancária nos tenta dar... Já o disse, eu estico a mão, não gosto desses beijinhos. Fora com o beijo social!

Posso ter percebido mal, mas que dane! Para mim o dia do beijo há-de ser daqueles beijos que só se dá a uma pessoa. Aquela pessoa que o pode dar onde quiser, mas que se der no pescoço está tudo perdido... Aquele beijo que se vier com uma mão na nuca é certo que corre melhor. Aquele que só sabe bem quando nos apetece. Aquele que interrompemos porque sorrimos lá pelo meio. Aquele que deixa desconfortável quem o vir. Aquele que espalha inveja porque se percebe a milhas que há-de ser muito bom. Aqueles que alguns acharão que já não são apropriados para certas idades... Esse beijo! Hoje queremos é esses beijos! Não troquemos as coisas e pelo'amor'da'santa não me venham cá com beijinhos da treta hoje...


3.08.2016

dos dias de coisas

Já se sabe que há dias para tudo, uns mais estúpidos de que outros. Já se sabe que a sociedade estraga muitos dias que têm o seu mérito. Hoje é um deles. Já só há um dia da mulher porque alguém se lembrou que seria uma boa altura para saldos (já apaguei no mínimo 6 sms e 5 emails com promoções só para mulheres!)
Se eu fosse homem estava lixado da vida, reclamaria pelo meu dia como as mulheres reclamaram pelo voto (e bem!). Cá em casa já me chamam de feminista, sufragista... e logo na véspera deste dia que cada vez mais perde sentido para mim.

Nunca enganei ninguém, acho que cada uma sabe que há coisas de homens e coisas de mulheres. Quando deixo #recado aos maridos é porque na verdade acho que o que as mulheres mais precisam não é de um dia em sua honra, não é de saldos que só realçam a fama de que só gostamos é de compras, não é de flores em punho porque estavam a distribuí-las à porta do ginásio, não é de mil posts com sorrisinhos a ignorar aquilo que de realmente importante algumas mulheres fazem nas suas áreas (em ciência, nas artes, no mundo...). O que as mulheres precisam é de poderem ser mulheres sem pensarem nisso, sem terem que ter uma oportunidade do o mostrar: ser assim, naturalmente pessoa igual a tantas outras.
Tenho a certeza de que as mulheres que lutaram pela igualdade não iam gostar de saber que há um dia só para elas, um dia que realça precisamente a diferença entre homens e mulheres (há países onde é feriado só para mulheres!!).

Gajos, se querem mostrar às mulheres que se lembram delas sem um dia, deixem esse presente no carro para outra ocasião, amanhã tenham o café pronto e não lhe falem de manhã, ao fim do dia, quando chegarem, pendurem os casacos e depois de não deixar coisas espalhadas pela casa toda agarrem-nas pelo pescoço (assim com a mão a apanhar a nuca, à filme) e dêem-lhes beijos completamente desprendidos daquela nada subtil mensagem: dêem beijos só porque é bom e porque até se juntarem e tudo mudar vocês faziam muito disso! E era bom, isso não há-de ter mudado... (a mania de que gente grande não dá beijo nem enrola baralha-me um bocado).

Não precisam de agradecer os banhos dos putos tomados, o jantar comprado, feito e pensado, a cama lavada e a roupa dobrada. Não precisam de agradecer aquilo que para nós é tão intuitivo como nós não agradecemos vocês ganharem dinheiro ou trabalharem até mais tarde, conseguirem carregar pilhas de livros e pendurar quadros e saberem escolher um carro pelo consumo e não por ser querido e decidirem a gestão das poupanças. Há casas em que isto inverte e eu quero lá saber. Não vou dar louvores a ninguém, cada agregado trate de si, que se compense do que e como entender. Que se debatam pelo protagonismo de fazer coisas convencionalmente do sexo oposto. Tanto me dá... entendam-se.

O que me irrita é que ande tudo maluco com um dia que perdeu o sentido e mais ainda que achem que eu sou uma feminista! Eu sei bem o meu lugar e odeio fundamentalismos... Eu só quero ´ mais beijos e amassos!

3.01.2016

da l'Oréal

Há coisas pequeninas que têm um impacto enorme em nós. Mesmo pequeninas... para as gajas em geral basta sair de casa com o cabelo menos lavado e já têm o dia estragado. Para os homens, mais robustos e nada dados a mariquices está sempre tudo óptimo!

Explicar-lhes que gostaríamos de pôr um aparelho nos dentes aos 36 dá-lhes vontade de rir. Queixarmo-nos das mamas que desapareceram ou caíram para lugar incógnito depois de termos os filhos dá-lhes vontade de assobiar para o lado e dizer, oh, nem se nota! Quando cortamos o cabelo não reparam de todo e roupa nova notam porque logo a seguir arrematam com um és rica de certeza! E se propomos um novo aparador arregalam os olhos sem perceber para que raio precisamos disso?!

Então nós vamos indo, atrás de pechinchas, soluções caseiras para as nossas maleitas, vamos tentando os cremes que vão aparecendo em promoção para tirar umas manchas que só nós vemos, vamos pondo vinagre no cabelo para recuperar o brilho que a juventude levou, andamos com protector solar o ano inteiro para prevenir rugas e engraxamos botas com 15 anos. Andamos com um botão aberto nos jeans a ver se ainda os usamos mais uma vez e fazemos download de apps de exercícios mágicos que em 7 minutos tonificam tudo aquilo que já perdeu o rumo há anos! Olhamos longamente para os armários e gavetas e vamos ao Pinterest tirar ideias de arrumação a ver se cabe tudo! Tiramos rótulos de garrafas de sumos para numa eventual festa de anos dos miúdos ter sumo numa garrafa com uma palhinha toda gira e ainda vamos para o YouTube aprender a fazer ponpons de papel crepe.

Somos mestres da reciclagem, do copianço e e do desenrascanso!

O meu último desenrascanso ainda me faz quase chorar quando me olho ao espelho. Eu que sempre me gabei da cor do meu cabelo, quais madeixas naturais que mais parecem de profissional, cheio de vigor e brilho e até com poucas brancas (caso isso me incomodasse...) dei cabo dele! Num acto de desespero a tentar eliminar malditos (AKA piolhos) dei por mim a correr a um supermercado a comprar a primeira tinta que saísse com lavagens (era só um remedeio!). Procuro entre as caixas, leio os rótulos e voilá: sai em 28 lavagens. Não era a minha cor, vai.se notar de certeza, mas que se lixe, castanho é castanho. Corro para casa e trato do assunto como uma profissional, sigo as instruções, fico com o quarto de banho num oito de sujeira, tresando a tinta de cabelo, mas que os mato: mato!

E seco o cabelo e vejo o resultado e ei-lo! Nada de castanho, nada de castanho escuro sequer... preto! E digo-vos que ao fim de 37 lavagens (com duas enxaguadelas por banho!!) ele continua preto. Não sou eu desde dia 9 de Janeiro. Ainda sinto que olham para mim sem perceber bem o que mudou (sim, a certa altura já desisti da humilhante explicação). Não tenho vontade sequer de o escovar, só de o lavar non-stop até voltar ao que era. Já estive 3 vezes à porta de um cabeleireiro quase a pedir que me resolvessem isto, nem que fosse preciso cortá-lo, muito! Mas o orçamento estava curto e isto há-de voltar ao sítio. Deixa-te de tretas e infantilidade, woman up! digo eu.

#metom #ohcrap#cenasdegaja #medidasdesesperadas i don't see myself anymore... on instagram

Basicamente, se algum dia vos passar pela cabeça uma coisa deste estilo, notem: 28 lavagens o caraças! Eu havia de encontrar alguém que trabalhasse nesta empresa e contava-lhe este meu desgosto...
obrigadinha L'Oréal!

2.25.2016

do ventilador

Houve uma altura em que este blog vivia, de facto, no anonimato. Dava-se com outros blogs, mas nada de íntimo e pessoal. Não víamos caras, não tínhamos amigos comuns, não sabíamos nomes. E eu estava a 6000km de distância o que facilitava bastante este ser sem mossa. Depois fiz uma pausa, arrumei a minha vida, voltei para PT, tive mais filhos, mudei de casa, emprego, cidade. Mudei muito e muita coisa. E este blog mudou também.
Nunca o escrevi para ensinar nada a ninguém, para fazer amigos ou ser uma famosa blogger. Não pretendo que alguém se identifique comigo ou que faça uma partilha do que quer que seja. Escrevo porque que é a melhor forma que tenho de me exprimir, escrevo porque não quero esquecer, escrevo porque preciso muitas vezes de ventilar e assim não chateava ninguém.
Todos precisamos de ventilar para qualquer lado ou com alguém. E estar entre os "nossos" tanto torna isso complicado [porque ventilamos sobre pessoas e coisas que nos são comuns] como facilita bastante em outras ocasiões [precisamente porque é sobre coisas, pessoas comuns] e sabemos que alguém nos vai apoiar ou mandar dar uma volta.

De tudo o que me faz falta da minha outra vida, esta é uma das coisas que há alturas em que sinto mais falta. Posso ir comer francesinhas à Casa do Porto, olhar para o Tejo e fingir que é o Douro, posso ir ao Porto visitar a minha família, posso estar no whatsapp e falar com amigos, mas em poucas alturas consigo ventilar. Em semanas como as recentes, particularmente difíceis e emocionais, eu senti o ridículo da familiaridade deste blog, porque nem tudo é descritível, nem de todos podemos falar, nem tudo devemos contar.
Já não posso vir para aqui falar (ou queixar) de trabalho, de casa, da família, dos amigos, estão muitos por cá (obrigada!). E já ando aqui a debitar as minhas parvoíces que chegue. Não posso ligar porque há coisas que não se expressam por telefone. E muitas vezes só precisamos é que alguém esteja connosco, em silêncio, sem fazer perguntas, sem levantar ondas, sem puxar conversa, só estar e deixar-nos debitar qualquer coisa se e quando quisermos. E aturar os gritos que dermos, as fúrias que tivermos, os meltdowns que não controlarmos... Não tenho muito disso por aqui, um ventilador.

Todos precisamos de um ventilador, de vez em quando, e quando não está na hora certa no sítio certo então o que precisávamos de ter tirado de nós não sai, fica nas coisas que não se diz e nas palavras que não se escreve. E tanto sentimento transpira sem actos e palavras... Todos precisamos de alguém alheio a parte da nossa vida, alguém de outra dimensão - e vocês já não o são. (sem dramas ãh? que isto é um elogio)

Outro dia falava com o A. sobre isto (mais ou menos) e ele dizia: como sentes-te sozinha? estiveste com os miúdos até agora... ri-me para não lhe bater. e percebi que esta é uma ideia muito mais geral do que eu imaginava. Mas há realmente quem ache que crianças, colegas, empregadas, maridos, ou mulheres são companhia que chegue para não nos sentirmos sozinhos?! bem digo que não há nada pior do que alguém se sentir sozinho rodeado de gente. Acredito que as mulheres, mais do que os homens, pensem demasiado nestas tretas, mas que há por cá dias assim? há.

2.22.2016

do vago e do gut

Mais uma daquelas semanas em que a realidade dói. Como disse já não vejo telejornais, não leio notícias, não ouço noticiários. Não me incomoda ser ou estar ignorante da realidade quando ela me deixa assim, mal. Desligo o Facebook, ligo o Spotify, passeio-me no Pinterest, jogo às adivinhas com os miúdos, pinto as unhas, leio uma porno-chachada, re-organizo uma estante ou arrumo as roupas que já não servem. Ando a fugir da realidade, puro e duro, é isto.
Não percebo a partilha constante de tragédias sobre as quais nada há a fazer, não percebo a leitura assídua de coisas estilo CM e muito menos percebo como possa ser isso tema de conversa. FYI, eu não falo de desgraças, eu não as aguento.

Sempre achei piada ao gut feeling, ao quanto as nossas entranhas materializam aquilo que o cérebro ainda está para perceber. Se me desse para fazer investigação era nisso. Mas isto vem para o bem e para o mal... Numa semana em que parece que uma mãe fez uma qualquer bestialidade da qual não quis saber, com sucesso, quaisquer pormenores, tudo corria mais ou menos. Até passar no rio e ver um barco de borracha. Até juntar ao barco o título de uma notícia que me invadiu. E tenho que parar o carro, e estou em plena marginal a ter uma crise vagal. Choro, tenho vómitos, falta-me o ar e sinto o coração a querer sair do peito. Sinto a cara arder, as câimbras a intensificarem-se. Recomponho-me e retomo a marcha. Eu não vi nada, vi um barco no rio.

Fui buscar a X. ao ténis e ela lá se distraiu com as horas enquanto passeava no jardim. Sabe a combinação que temos e eu chego sempre em cima da hora para ela não ficar pendurada. Esperei 5 minutos. Ao 6º já estava a sair do carro e ao 10º, já sem fôlego de correr os jardins, eu pensava no pior. Estou sem estômago. Já tinha ligado ao A. e já gritava pelo nome dela quando a vi sair com um ramo de flores, cheia de calma, do meio de um arbusto. E tenho uma nova crise. Lembro-me de ter acontecido exatamente o mesmo entre mim e a minha Mãe e de ter apanhado um grande estalo. Lembro-me de ter achado um exagero aquela reacção a eu chegar 20 minutos mais tarde a casa numa tarde de inverno quando vinha da catequese. E agora sei que quem me bateu não foi a minha Mãe, há-de ter sido o vago dela.

Se algum dia me sujeitar a uma qualquer cirurgia vou aproveitar e pedir que mo tirem, o vago. Que anda a dar cabo de mim. O estômago acho que não dá para tirar e afinal de contas eu preciso dele, porque o meu gut feeling é muito mais apurado que qualquer outro que eu tenha.

2.15.2016

das perguntas do B.


As viagens escola-casa-escola-casa ou o que for são sempre uma surpresa. Se há coisa que não podemos contar é que sejam sempre iguais.
É no carro que me apanham sem possibilidade de fuga, é no carro que sabem que a minha mão não chega ao rabo para uma palmada se for preciso, é no carro que discutimos o dia, é no carro que me dizem as coisas mais queridas e as coisas mais horrendas... Ultimamente é o B. que tem o maior tempo de antena.

O B. é um puto peculiar, é um curioso nato, quer saber tudo (o que interessa), e mais do que saber, quer perceber tudo. E há muita coisa que ele não percebe ainda e isso deixa-o irado (esta palavra não é um exagero)! Se não fosse a exposição desnecessária e cruel do meu filho mostrava um vídeo em que ele chora lágrimas gordas porque não entende por que há metais duros e metais moles e porque é que ainda não sabe estas coisas nem explicá-las e pior por que é que demora tanto tempo a chegar o tempo de as saber... juro: 1m26s nesta dúvida fúria.

Ultimamente preocupa-se muito com a criação do mundo e das pessoas. Vou anotando as perguntas que me faz para depois ver se consigo responder...
- Mãe, Mãe... como é que apareceu o primeiro homem?
- Mãe, Mãe, Mãe! se eu for a Neptuno tenho lá oxigénio?
- Mãe, Mãe, foi a Mãe e o Pai que escolheram eu ser alérgico a nozes?
- Mãe, pões leite nas maminhas sempre que queres?
- Mãe, mãe, porque é que eu adoro coisas eletrónicas? 
- Mãe, como é Jesus é irmão de todos se eu não sou filho do José e da Maria?
- Mãe, Mãe, Mãe! explica-me a história do ovo e da galinha...

Chama-me sempre mais do que uma vez apesar de eu quase sempre responder ao primeiro chamamento: sim? e depois repete mais uma ou duas vezes apesar de eu já estar a olhar para ele e ele estar a olhar para mim por detrás das suas mega pestanas. Pensa uns segundos no que vai dizer e depois saem estas coisas. Desarma-me completamente. Deixa-me à toa com ar de parva a dizer que em casa tentamos perceber isto melhor ou boa pergunta, também não sei. Nunca vou saber meu filho.
Sei explicar-te a história dos mamíferos, a de Jesus, a de não haver oxigénio em todo o lado... mas nunca vou saber tudo, e tu também não.  E temo pensar que não estejas preparado para não saber tudo, que o não saber alguma coisa te deixe tão fora de ti. Que não percebas que tens todo o tempo do mundo para aprender.

Hoje veio de futebol com uma poupa à punk. Podia jurar que era gel mas assumi que fosse água e disse-lhe que oh filho com este frio e água na cabeça ainda ficas doente! Passou a mão com orgulho no cabelo: não é água Mãe, é cuspe! veio de mim para mim e isso não me pode fazer ficar doente, pois não?...

1.27.2016

dos super poderes

Estou com a cabeça um bocado em água... fins de mês são assim mesmo, janeiro é pior ainda. Tenho ene coisas e coisinhas a fazer, nem devia sequer estar agora aqui, mas paro porque preciso dos meus 15 minutos.
Sempre que me perguntam que super poder gostava de ter, a minha resposta varia entre duas. Uma mais palhaça mas não menos desejada: o poder do teletransporte e a outra mais séria. Um poder que sempre quis, que quando consegui foi terrível (porque já se sabe que se é para criticar temos uma mão cheia de gente!), um super poder que no fundo nunca passou de um pedido, i guess...
O que eu realmente gostava era de me ver com os olhos de outro. Como sou, como ando, como me rio, como me sinto, como falo, como não falo, como sou - aos olhos de outro.
De vez em quando há pequenas coisas que apanho e que me surpreendem. Hoje por exemplo disseram-me que era daquelas pessoas que via sempre o copo meio cheio. Não sei se sou, não interessa sequer, mas nunca imaginei que me achassem positiva. Se calhar porque para ser-se positivo é preciso ser-se expressivo e eu não acho que o seja. Se calhar porque para ser-se positivo é preciso ter carga negativa, e eu não tenho muita graças a Deus. Se calhar sou mesmo assim.
Acrescento mais essa às coisas que vou coleccionando. Nem todas boas, nem todas verdades, mas é o que tenho. Nas colecções não se tem só do que se gosta. Sou antipática, sou mandona, sou generosa, sou calada ou não me calo, choro facilmente, sou impaciente, dou bons beijos, sou solícita, sou anti-social ou malcriada, sou uma romântica... é isto que se vê?
Nós: somos o que nos dizem que somos? Somos aquilo que fazemos, disso tenho a certeza. Somos ligeiramente diferentes, ou temos diferentes níveis de intensidade consoante com quem estamos. Somos um reflexo da nossa educação, somos um reflexo dos exemplos. Somos tudo e ainda assim, se me quiser descrever não sei que diga. Por que não sei como os outros me veêm e isso parece fazer diferença.
Não costumo perder muito tempo a pensar nisto, é o que é. Mas hoje pensei e achei que valia a pena fazer uma viagem ao encontro de mim mesma. Viajo e raramente me encontro.

1.19.2016

do ciúme

Não vou falar do meu ciúme (porque o tenho, admito). Não vou falar do ciúme que o A. diz que não tem (o que me irrita). Não vou falar do ciúme que os meus filhos têm uns dos outros (porque há dias é que uns são mais mimados do que os outros).
Hoje em almoço de ladies, onde constavam divorciadas, amancebadas e namoradas recém separadas mas com namorados novos discutia-se o estatuto dos ex. Não tenho muitos e por isso pouco posso opinar sobre o assunto. Não fiquei íntima de nenhum, mas não os tirei da minha vida porque também não saíram. Andam por cá, com amigos comuns, vemo-nos em casamentos batizados e funerais... Um deles nem nunca mais vi mas sou amiga no FB, e pouco falamos. Adiante que esse não era o tópico...
Então uma comentava que as "casadas" (note-se que eu era a única) não percebem estas andanças. Que não perguntam, não querem saber, ou fingem que não sabem. Que não comentam, não acompanham, não perguntam como correm as coisas nem o que vais fazer logo à noite. Ia pensando no que ela dizia.  De facto não tenho muitos amigos que se tenham separado e os que se separaram o ex não era núcleo duro. De facto aos que se separaram eu não liguei muito, não perguntei fora de momento oportuno como corria a vida, nem se tinham novas "amizades coloridas". E não foi por esquecimento.
Eu, falo por mim, não perguntei, acho que com medo que fosse interpretado como atrevimento, como cusquice. Não fiz planos propositados porque não seriam vistos como mais do que actos de piedade. E não perguntei todas as semanas como corria a vida porque de facto, eu assumo, tenho de vez em quando ciúmes da liberdade destes "solteiros". Da facilidade com que podem ir jantar fora, sair à noite, namoriscar alguém, jantar cereais e ver séries sem zapping. Faltar à depilação, ir ao ginásio ao fim do dia, perder horas nas compras. Já o disse ene vezes, por vezes com vergonha (mas sem arrependimentos das minhas escolhas), mas sim, há dias em que queria estar nesse clube. São ciúmes minha gente. Nós não vos ligamos por inveja e ciúmes.
Isto saiu-me em voz alta, num daqueles momentos em que achamos que estamos a pensar mas já as palavras saíram e tenho as 3 a olhar para mim. Jura?! Achas?... Não juro, mas acho...
Não levem as casadas a mal, a mesma nostalgia que vocês têm dos programas com amigos, dos convites que não se vos fazem porque ia ser awkward, nós temos das vossas noitadas, da vossa liberdade, dos vossos programas. Há dias maus quer estejamos sozinhas ou acompanhadas, há dias em que rodeadas de maridos e filhos as casadas se sentem sozinhas e nesses dias qualquer uma de nós trocava de posição. Acho. Mas tenho a certeza de que se eu ligar a uma solteira a queixar-me da vida de casada, há-de ser tão surreal como uma solteira fazer o contrário. Hoje estive com elas no momento errado, mas talvez tenha dito a coisa certa...  

1.07.2016

dos malditos

Tinha coisas muito mais interessantes para dizer agora mas esta tem que sair! E vou já avisando que os mais sensíveis não devem ler isto...
Lembro-mde se ser miúda e estar horas deitada em cima de uma fronha branca (quando tinha sorte) ou com a testa apoiada no lavatório e a minha Mãe só me dizer: pára quieta! e depois ouvir um pequeno estalar com eficazmente fazia com a unha. Nunca percebi muito bem a histeria de de vez em quando coçar a cabeça. Nunca percebi até ao dia em que tive a mesma histeria cá em casa!

Os cabrões, as cabras vão aparecendo e fica um hábito condicionado de quando lhes passo a mão pela cabeça, já agora, ver se não anda por lá nada... A X. foi sempre a mais premiada cá de casa. Os rapazes escapavam, emails após emails de alertas na escola eu dizia triunfantemente que nah, a eles não lhes tocam... Qual não o meu espanto quando por altura do Natal descubro que tocam, dançam e saltam como se não houvesse amanhã. Não há cá remédios, champôos ou mezinhas que os livrem desta bosta. É sempre a melhor solução pôr-lhes a cabeça numa fronha branca ou no lavatório e passar o pente horas sem fim. Da última colheita saltou um exército de 5 cabrões da cabeça do L. que tinha feito os caros tratamentos há nem uma semana! Não há volta a dar.

Claro que eu falando deste assunto vocês já estão todos desse lado agarrados à cabeça a coçarem-se e a pensar que isso a mim não me toca. Tal como eu fazia até hoje! Que me coçava e tal mas depois de inspeção ao espelho pensava: é mania, não tenho nada! E depois ainda pedia com voz doce ao meu marido que tu é que podias espreitar ai atrás?... Pois claro! Esquece lá isso que é paranóia tua ou, eu sei lá ver isso! ou mesmo um oh, deixa-te de invenções! e pronto, lá ia fazendo um tratamento de vez em quando não fosse o diabo tecê-las! Queridos maridos, os cabrões tocam a todos e se vocês não se põe a pau e nos ajudam com esta praga têm duas soluções apenas: ou nos passam o pente horas sem fim no sofá ou passam já um cheque para a Clínica do Piolho! Façam qualquer coisa!

Já me basta o dinheiro que já voou em champôos e choros de ai que me magoas! e estão optimos num fim de semana para mal voltam à escola voltarem os malditos! Já me basta a humilhação da minha filha estar com a mania que inspeciona as cabeças dos rapazes e a minha (antes ela o soubesse mesmo fazer!) em qualquer sítio onde esteja! Já nos basta limpar rabos, escovar cabelos e dentes, mudar fraldas cortar unhas e levá-los às vacinas e todos os dramas da vida de uma criança! Ponham-se espertos e aprendam pelo menos a catar piolhos!

De todos os dias, de todos os catanços, hoje foi o pior, foi de facto constatar que os cabrões moram em mim, não é mania! Foi vê-lo mostrengo a dar ao rabo pelo lavatório fora e pensar há quanto tempo andas aí meu fdp?! Foi o dia do nojo mais profundo, porque os deles "faz parte", mas eu?! uma senhora que faz um brushing impecável em casa, anda cheirosa e que usa os melhores champôos e que nem sequer se encosta em qualquer lado? eu não merecia, eu não o convidei, mas cá está, o maldito não precisa de ser convidado... Aviso de novo: os malditos não precisam de convite!

12.28.2015

do natal

Foi mais ou menos assim. Foi apreciar o tal do tempo. E foi bom.

Eu não costumo puxar do cliché do ah! tu não tens filhos não sabes como é mas esta é uma daquelas alturas do ano em que ter filhos é o mote para tudo.
Depois de finalmente acertar o horário e locais das festas (acreditem que nem sempre é fácil) e já sabermos onde vamos quando e com quem já falta menos para o dia...

Começa lá para outubro/novembro quando as mães mais preocupadas começam a pensar no outfit das criancinhas. Nada fica ao acaso! Correm lojas, abrem baús, pedem emprestado, gastam horrores de dinheiro porque se os miúdos não estiverem vestidos de igual ou a fazer o belo do pandant quase que não é Natal!
(i) lá em casa já me deixei desta tradição. É qualquer coisa arranjada e confortável que não se encurrilhe toda na mala...

Depois para as mais prevenidas, começa a lista de presentes que não podem falhar. Estamos ainda mais atentas aos benditos fins de semanas de promoções, tiramos o dia para ir aos 50% em cartão e trocamos mensagens para saber o que é que a tua filha quer este ano ou qual é o super herói do momento. Poucas mães diligentes não terão já completa a sua lista lá para inícios de dezembro.

(ii) eu não fui a tempo dos 50%, fiz a lista e respectivas compras dia 22 e 23 de dezembro e esqueci-me de uma madrinha :/

E finalmente (depois longas horas de viagens para muitas famílias) lá chegamos ao destino. E é aqui que a história dos filhos chega ao seu melhor, e ao seu pior!
Se Deus quiser passamos dia 24 coladas às nossas mães a pôr mesas, fritar rabanadas, preparar tudo de barriga encostada à banca, a cheirar a canela e fritos e bacalhau. Quando podemos pedimos aos pais que levem as crianças a qualquer lado, que desapareçam com elas (deixa lá o meu presente que ficou para 24 e fica mas é com eles que já é um grande presente dizemos tratasses disso antes!)

Lá para as 7 começamos a pensar que são horas de ir trocar de roupa, lavar a cabeça porque estamos um caco e isto não é maneira de se passar o Natal. Tomamos um último café na cozinha e passamos logo a chávena por água porque loiça vai haver que chegue mais logo! E os miúdos já estão de volta em frenesim, temos que tratar de lhes pôr a tal roupa kitada que há meses está pensada (e claro que os homens não vão acertar com isso!), temos que os afastar da árvore e temos que responder a todas e quaisquer perguntas do estilo viste por aí algum duende?, a que horas chega o menino Jesus?, já posso abrir aqueles presentes ali? e por que não? Eles vivem o ano inteiro para estes dias, tentamos não perder a cabeça e o espírito de Natal e lá vamos adiando tudo para mais tarde, e que é já já a seguir, falta pouco (tretas...)

Depois jantamos finalmente (ah, o tal tempo)! Os míudos já comeram qualquer coisa e nem nos preocupamos se é muito ou pouco, é Natal, hão-de comer que chegue para uma semana (ou pelos menos eu sinto que sim). A televisão ajuda a entrete-los e como que por magia consegue-se jantar com alguma calma, com tempo. Não é um jantar diferente de tantos outros, mas é Natal, estamos todos mais bonitos concerteza, os gajos põe gravatas, andamos de coroas de papel colorido na cabeça e de facto há qualquer coisa de mágico. E uma maravilha de uma roupa-velha que no Natal tem um sabor diferente.

Depois cantamos ao Menino (este ano não cantamos não sei porquê!) e corremos para a outra freguesia onde nos esperam os presentes de um lado qualquer da familia. Nestes dias chovem presentes de todo o lado... Os putos só param de perguntar por mais presentes lá para dia 2 de janeiro!

Começa o festival de papel por todo o lado, de gritos de excitação, de alguns suspiros de frustração porque nem sempre gostam do que recebem, das comparações entre uns e outros, da trabalheira que é montar qualquer coisa e nós mães desesperadas a tentar esconder alguns num saco porque é demais, e eles a gritarem porque não têm ainda que chegue... E querem pilhas! e querem usar todas canetas numa parede qualquer e vão já perder peças de legos ou de qualquer aparelhómetro que ainda nem percebemos o que é! As mães a agradecerem os presentes e eles lá em baixo agarrados às pernas confusos porque afinal foi o Menino que os deu e o Pai Natal ia entregar mas agora para ceu uma Tia ao barulho vinda de onde?! Está instalado o caos, o tal que é o melhor e o pior do natal de quem tem miúdos...
Gerir onde se vai arrumar tudo, o que vai ficar a uso, o que vamos ter que ir trocar, ler caras das mães e perceber que não adoram aquela cor ou afinal eles já não acham piada a isto e fazer um lembrete mental de que tamanho vestem para o ano acertar. Gerir o tempo de arrumar a cozinha e acompanhá-los neste caos, o tempo de carregar o carro com sacos e ter a certeza de que não fica nenhum para trás. e saber de quem é o quê (3 filhos dá direito a não conseguir perceber!). Vestir casacos, carregar sacos, mete-los no carro (os miudos e os sacos) e repetir tudo dia 25....

Pô-los na cama à 1h30 da manhã, tirar o sono da tarde, as birras que se desculpam porque estão desnorteados, o desafio de os tirar da cama no dia seguinte... Não é esta vida que são 2 dias, é o Natal.


12.17.2015

do tempo

Não cheira a nada!! A música soa toda a kizomba!! Começo a ficar cansada do natal.
Todos os anos se repete esta história, esta correria, esta estupidez que fizeram do mês de dezembro e a que resolveu chamar natal. Um insulto, uma tristeza. Este ano esta coisa de começar a não gostar do natal bateu mais forte quando vi um anúncio cujo spot era #natalsemfilas. What?! Já nem os reclames apelam ao espírito da época, já nem disfarçam a farsa que é este circo.
Não fora eu ter sobrinhos e boicotava de vez qualquer presente de natal. Discretamente tento afastar os meus filhos desta anormalidade de cartas e colagens de catálogos e merdas afins. Claro que é inevitável que tudo isto lhes chegue de qualquer forma. Mas confesso que me orgulho de ver que para eles o Natal ainda não é presentes, só presentes. O Natal deles é mais as grandes correrias com os primos, roupa velha e farrapada, histórias à mesa e cantar ao Menino quando Ele nasce.


Mais ano menos ano sei que já não vão em tretas, sei que vão atravessar ou chegar a uma fase em que realmente o natal são presentes e listas e coisas que já sabiam que iam ter e correrias para o shopping para trocar coisas e oh tia não tem talão?...
Nós já não damos quase presentes nenhuns, damos mesmo o mínimo, mas já sei que vou chegar às vésperas e vou ter um pequeno pânico porque me esqueci de alguém. E eu nos livre de fazer figuras tristes!

Só me falta convencer o A. e um dia deixo mesmo de dar presentes. Faço como as Juntas que cheias de bondade fazem caridade em vez de iluminar as ruas. Vou ser a tia nojenta que não tarda dá desenhos ou coisa nenhuma. Ou aquela que diz escolhes qualquer coisa depois de passares tempo comigo. Tempo, é esse o melhor presente. O tempo e o coração 100% dedicados ao Natal. E tempo é realmente uma coisa cara. No nosso caso é inclusive um luxo em meses como este em que fazemos 650km numa autoestrada todos os fins de semana e isto faz diferença no orçamento. Nem por isso me custa ir se for para estar presente - não para dar presentes. Nem o cansaço de os fazer ou os trabalhos de casa (deles e meus) adiados são tão fortes que nos façam não ter tempo. E o tempo que temos agora muda em muito menos tempo do que podemos prever ou desejar. Ainda não foi desta que boicotei os presentes (todos...) mas sinto que está para breve o momento em que explico à bruta a pouca importância que eles têm (ou eu lhes dou).

Como sei que as crianças não lêem isto e como sei que os pais são espertos e não lhes dizem, eu cá confesso, não faço puto de ideia do que dei o ano passado nem o que vou dar ainda este ano. Tenho que tirar tempo para ir às compras. Se o tiver, pois claro.


12.16.2015

do Bom Destino

Foi p'ra fazer um bom destino
Que ela inventou com que se entreter
Dança os mais altos desafios
Que toda a alma pretende ter
Experimentou o desatino
Semeia o sol, colhe a tempestade
Foi p'lo sabor do seu caminho
Onde plantou o azevinho
Semeia o sol, colhe a tempestade
Tu deste o fortúnio pelo amor
Quando assentou o teu sorrisonão te restava nada
Semeia o sol, colhe a tempestade
Viu o seu esforço a querer se inverter
Ainda p'ra mais tendo aprendido
Nunca é tarde p'ra perder
Quem paga p'ra ver?
Ninguém aposta no teu fracasso
Ninguém se abate se ele acontecer
Dizem que os bons não nascem por acaso
Tens tanto a fazer
Que ela acabou por se convencer
Que avançava mais indo mansinho
Que em passos altos a combater
Cresceu o dom de saber ver crescer
Linda a promessa do destino
Se houver vontade de a manter
Quem paga p'ra ver?
Ninguém aposta no teu fracasso
Ninguém se abate se ele acontecer
Dizem que um dom não desce por acaso
Quem tem, tem de o ter
Não te restou mais nada
Provaste o grande dissaborda fria madrugada
Apenas tudo o que é preciso:a paz da caminhada
Quem paga p'ra ver?
Ninguém aposta no teu fracasso
Ninguém se abate se ele acontecer
Dizem que os bons não nascem por acaso
Tens tanto a fazer


Márcia

12.02.2015

d'A conversa

O dia havia de se chegar. Já se foi anunciando em pequenas perguntas, em danças mais sui geniris, em risinhos parvos, em questões técnicas tipo por onde é que os bebés saem... O dia ficou mais perto quando na escola começam a ensinar a treta do sistema reprodutor no 3º ano. Fora o pormenor de me parecer indecentemente prematuro, pergunto-me se equacionaram a parte de explicar como é que a sementinha se enfia pela barriga da mãe adentro?! Pois claro, nada como lançar a bomba e deixar os pais tratarem do resto... Ensinam uns mega palavrões e esquecem-se que as crianças não vão decorar mais do que isso: palavrões. Um sistema altamente complexo que eu apenas pretendo que os meus filhos entendam como amor. Estamos lixados.

Recebo a mensagem: prepara-te, hoje é o dia em que temos A conversa! Instala-se o pânico em mim, corro para a internet e só fico mais aflita. Não tarda a miúda entra pela porta e vem pedir-me as satisfações! E eu á toa. O pai que já foi avisando que é conversa para termos os 3, portanto suponho que o que quer que seja que ela tenha estado a fazer nas últimas 2 horas foi em vão, porque eu conheço-a e sei que isto não lhe saiu da cabeça. Há-de estar em pulgas para perceber a técnica, tal como eu estou em pulgas quando a ponho em acção. Its only natural penso eu... A internet é uma palhaçada pegada: descobri tanto sobre isto como sobre se deva ou não deixar as tartarugas hibernarem! Tento lembrar-me do que me ensinaram a mim, mais inútil ainda!
Mas e agora pôr isto em termos que ela perceba?

Explicar-lhe que é bom para caraças, com a pessoa certa. Esclarecer que só é bom se dois pessoas quiserem e que só depois de crescerem maminhas é que faz sentido? Dizer-lhe que pode perguntar o que quiser e que não precisa de ter vergonha de querer saber, mas fazê-la entender de que não adianta explicar a teoria, porque na prática e tão mais simples e tão mais complexo? Ou explicar a técnica e fingir que nem é assim tão bom e que é um mal necessário para de facto termos bebés. help!! como raio explico essa treta da semente que algum desgraçado inventou?! oh filha, então sai do pénis que está dentro da vagina da mãe e fica por lá até crescer um bébé?! Estamos lixados.

Já lhe expliquei que não, que aos 13 anos não se deve ainda ter filhos... Já outro dia fui adiantando que o pipi não é só para fazer xixi, que sim, que os bebés saem por lá (os meus não, mas isso agora não interessa nada!), não equacionei a parte de que ela ia querer saber mais, já. Pelos vistos uma amiga da escola explicou-lhe qualquer coisa... há-de ter soado tão surreal que ela quer confirmar a história com alguém mais credível - os pais. Fico muito contente por isso, mais ainda por ela ter tido a coragem de perguntar, mas sinto-me encurralada. Os meus pais educaram-me em muita coisa, nisto, desculpem, mas foram uma lástima! Nisto quero ser diferente deles!

Espero que ela chegue, que me explique o que a amiga lhe explicou e confirmo ou desminto. Parece-me um bom plano. Pode ser que seja tão simples quanto isto...