Vontade de comer pode ser independente do sabor da comida
Ciência Hoje falou com Albino Maia, co-autor do estudo publicado pela Neuron::
2008-03-26 Por Marta F. Reis
Albino Maia fala do papel da via metabólica
E se o factor "doce" não for o único a determinar a vontade de comer doces? O exemplo serve para explicar que a vontade de comer não tem de ter sempre a ver com o sabor da comida e é a conclusão de uma investigação internacional, de que fizeram parte alguns cientistas portugueses do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), no Porto. O estudo, publicado esta semana pela revista científica "Neuron", conclui que o cérebro tem mecanismos capazes de detectar o valor calórico dos alimentos que interferem com o comportamento alimentar. Segundo Albino Maia, investigador do IBMC e do Duke University Medical Center, nos Estados Unidos, é a primeira vez que uma investigação demonstra a independência completa do valor metabólico e oral dos alimentos. Mesmo sem o sabor doce do açúcar há preferência pelo mesmo!
Ciência Hoje - Em que consistia a investigação?
Albino Maia - Neste estudo foram utilizados animais modificados geneticamente de forma a eliminar a percepção do sabor doce. Estes animais constituem uma ferramenta excelente para estudar se é possível detectar o conteúdo calórico de uma substância cujo sabor é imperceptível. Utilizámos os mesmos animais para verificar de que forma o cérebro detecta o valor calórico, na ausência de informação relativa ao sabor. Nesse sentido, foram efectuadas 'in vivo' medições neuroquímicas (dopamina) e neurofisiológicas em animais acordados e a consumir livremente soluções doces, com ou sem calorias (açúcar ou adoçante).
CH - Quais foram as conclusões?
A.M. - Verificámos que, mesmo sem sentir o sabor doce do açucar, os animais desenvolveram uma forte preferência pelo mesmo. Pelo contrário, a utilização de um adoçante sem calorias não motivou o desenvolvimento desta resposta. Ou seja, estes animais mantêm a sensibilidade para detectar valores metabólicos que são utilizados para orientar o comportamento. O que é particularmente interessante é a demonstração de que os mesmos mecanismos e neurotransmissores cerebrais envolvidos na codificação do valor dos alimentos com base no seu sabor, são utilizados por estes animais geneticamente modificados para codificar o valor metabólico de um açúcar calórico (sacarose).
CH - Descobrir que afinal a vontade de comer não está relacionada apenas com o sabor da comida foi uma surpresa?
A.M. - Na verdade, a descoberta é que a vontade de comer pode ser independente do sabor da comida. O nosso trabalho não sugere que o sabor não seja importante, mas que há duas vias (sabor e valor metabólico) que, apesar de independentes, actuam nos mesmos centros cerebrais. Efectivamente foi uma surpresa o achado de que a 'via metabólica' pode actuar no comportamento e no cérebro de forma totalmente independente da 'via oral' (sabor). Apesar de haver já diversos trabalhos sobre qualquer uma destas vias na regulação dos comportamentos alimentares, nunca ninguém tinha conjugado os instrumentos por nós utilizados para demonstrar a independência completa dos valores metabólico e oral dos alimentos.
CH - Em termos práticos, por exemplo no combate da obesidade, que consequências pode ter este trabalho?
A.M. - No imediato o nosso trabalho tem poucas consequências para o tratamento ou prevenção da obesidade em humanos. A tradução de achados mais 'básicos' para a aplicação em humanos é sempre trabalhosa, demorada e nem sempre resulta. No entanto é fundamental começar nos animais onde se podem fazer experiências mais bem controladas, manipulações mais específicas (tais como a eliminação de um gene) e intervenções mais invasivas. Neste caso, tal como em muitos outros, resultam hipóteses muito específicas que podem ser utilizadas para desenhar e conduzir outras experiências, eventualmente incluindo algumas em que se estudam intervenções terapêuticas ou preventivas em humanos.
CH - Mas têm essa expectativa…
A.M. - Gostaríamos muito que esse fosse o caso com este trabalho e, uma vez que verificámos efeitos no sistema dopaminérgico, que é passível de manipulação farmacológica em humanos, não nos parece de todo impossível que possam resultar aplicações em humanos. No entanto, só o tempo e muito mais trabalho dirão se tal será possível.
CH - Qual o significado da vossa descoberta para as neurociências?
A.M. - Demonstrámos que, apesar do valor calórico/metabólico dos alimentos poder influenciar as escolhas alimentares de forma independente do valor orosensorial (sabor ou palatabilidade), a tradução de qualquer uma destas vias de recompensa alimentar passa pela activação do mesmo sistema dopaminérgico cerebral. No contexto das neurociências este trabalho, em primeiro lugar, consolida um novo modelo para o estudo do impacto comportamental e neurobiológico do componente nutricional dos alimentos, independentemente do sabor dos mesmos. Por outro lado, é demonstrada uma nova forma pela qual o sistema dopaminérgico cerebral pode ser activado (recompensa metabólica), para além dos que já eram conhecidos (recompensa oral/sabor e recompensa farmacológica com substâncias como a cocaína).